A superprodução BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS, de Christopher Nolan, estréia no Brasil no dia 18 com dois fatos novos. Um diz respeito à técnica e o outro ao enredo. É o primeiro longa-metragem de ficção com seis seqüências rodadas com câmeras de alta resolução do sistema Imax, até então usado em documentários.
Quanto à história, o personagem passou por uma reciclagem moral. Agora, Batman tem dúvidas sobre sua missão no mundo e é ofuscado por um vilão que convence pela eloqüência: o Coringa. “Você me completa”, diz o vilão a um Batman estupefato. “Nós dois somos malucos. Ninguém nos dá credibilidade. Como eu, você acredita no Bem e eu no Mal”
O papel criado pelo Ator Heath Ledger deverá entrar para as enciclopédias de Hollywood, também por motivos extra-artísticos. Há o ingrediente macabro. O ator morreu em janeiro em circunstâncias não esclarecidas (possivelmente overdose), aos 28 anos. Batman – O Cavaleiro das Trevas foi seu derradeiro trabalho completo para o cinema. Mas, o que impressiona é a razão artística. O trabalho de Ledger enche a tela. Ele constrói um Coringa que tende a despertar simpatia, mas também medo. Seus tiques, a voz estridente, as frases de efeito, a expressão no rosto, tudo concorre para a ambivalência. É essa a figura bizarra que demonstra ao público e aos personagens do filme que vivemos tempos de relativismo moral. E, nestes tempos, os limites entre o Mal e o Bem se confundem na prática. O Coringa tem convicção em sua busca pelo Mal absoluto. O resto é relativo. A cada vítima que degola, ele conta uma história triste de sua infância. Enquanto elabora enredos para a própria crueldade, fazendo do crime uma forma de arte, seus comparsas querem algo bem mais simples: dinheiro. Após a fantástica seqüência do roubo do banco em Gotham City, o vilão se encontra com o bando num galpão à beira do rio. Um mafioso lhe mostra uma montanha de dinheiro, Coringa não tem dúvida. “As três coisas que mais gosto são gasolina, pólvora e álcool, e essas coisas têm algo em comum: são baratas”, diz enquanto ateia fogo às cédulas. Na concorrida pré-estréia para a imprensa, realizada em Los Angeles há duas semanas, o público de especialistas e nerds vibrou e aplaudiu. “É a hora do vilão”, afirmou o quadrinista e cineasta Ken Smith, uma das celebridades presentes.
Na rodada de entrevistas concedida à imprensa do mundo inteiro, no Hotel Wilshire, em Beverly Hills, atores e realizadores comentaram a atuação de Heath Ledger. “Ele era um grande ator”, disse Gary Oldman, que faz o tenente James Gordon. “A gente se divertiu muito trabalhando juntos. Quando me perguntaram se eu ‘vivi’ meu papel. Acho graça.” Oldman riu durante a entrevista: “As pessoas se esquecem que a gente não vive, e sim faz o papel. É o que se chama de atuação! O Heath conseguiu fazer um papel macabro, mas fora do set, ele contava piada, fumava e se divertia. Na verdade, ele nada tem a ver com o Coringa, pois estava vivendo um momento de felicidade.” Oldman aposta numa indicação póstuma para o ator no próximo Oscar. “Heath falava o tempo todo da filha”, afirmou o tímido galês Christian Bale, que faz o Homem-Morcego. “Seu trabalho foi fundamental para criar a crise de identidade de meu personagem – que, no fundo, não é um herói, é um homem rico preocupado em fazer algo por sua cidade.”
A força do papel de Ledger está na “integridade” em relação à crença e nas falas recheadas de sabedoria. Com sua convicção, o Coringa mostra a Batman que este combate o crime assaltado por dúvidas. Seu pior inimigo não é o vilão do momento, mas o dilema moral. O protagonista se pergunta: será honesto lutar contra os bandidos fora da esfera da lei? Por isso, ele resolve devolver a tarefa às autoridades: o tenente Gordon, o policial acima de qualquer suspeita, e o espalhafatoso promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart). A certa altura, quando as instituições falham, Batman faz a seguinte confissão, à meia-voz: “Não sou um herói. Eu matei pessoas.” Sua vontade é de tirar a máscara. Não a do Batman. A máscara que o incomoda é a do milionário Bruce Wayne, que agora mora em uma cobertura de luxo.
O Homem-Morcego jamais havia atingido o fundo do poço da Batcaverna – convertida em um compartimento secreto do apartamento de Wayne. O Herói (era herói até então) passou por várias fases e modelos de máscara desde seu surgimento, em 1939, numa revista em quadrinhos da DC Comics, criado pelo roteirista Bob Kane. Foi burlesco na televisão, na versão cômica de Adam West. Mergulhou na depressão na graphic novel de Frank Miller – situação repetida na versão cinematográfica de 1989 dirigida por Tim Burton. Nessa, apareceu até mesmo um Coringa brilhante, vivido por Jack Nicholson. Ele não foi capaz, no entanto, de desviar o herói do bom caminho. Até a abordagem “noir” e expressionista de Christopher Nolan, o justiceiro não tinha chegado a ponto de pôr a reputação em xeque.
O enredo não é linear, explica a dupla de roteiristas. Jonathan Nolan, irmão do diretor, e David S. Goyer criaram uma alegoria dos tempos atuais em vários quadros simbólicos, alguns deles descolados da trama. “Tudo foi planejado”, afirmou Goyer. “Heath Ledger não extrapolou os limites do roteiro. Ele reproduziu quase exatamente o Coringa que criamos.” Goyer disse bem: quase. Ledger muitas vezes vai além da fala. Os monólogos do Coringa e as lamentações de Batman lembram uma tragédia grega, num jogo de máscaras e idéias, que o diretor tratou de toldar com uma fotografia em tons escuros. Para potencializar o resultado, a trilha sonora de Hans Zimmer, soa como uma ópera séria. Para além da moral e da lei, da morte e da violência, a dupla Batman e Coringa resiste pela fantasia. Tanto um como o outro anseiam pela abolição do mundo real e das leis mesquinhas que o regem. A dupla anseia pelo poder supremo da criação.
No cinema, pelo menos, essa prerrogativa é do diretor. A intenção do inglês Christopher Nolan, em seu segundo longa com a franquia, foi restituir a magia dos atores e das locações reais. “O público está enjoado dos efeitos especiais”, disse a ÉPOCA. “Rodamos tudo com a atmosfera do mundo concreto”. As cidades de Chicago e Hong Kong foram usadas para as seqüências de perseguição e mergulhos em arranha-céus. “Tivemos alguns problemas de locação na China por conta do governo e usamos computação gráfica para preencher a lacuna”, disse o produtor Charles Roven. Houve momentos em que o trânsito de Chicago teve de ser interrompido para dar continuidade à produção. O custo estimado do filme é de US$ 150 milhões.
Nolan imaginou uma grande tela hiper-realista. Para isso, recorreu à tecnologia do Imax, cujo padrão de tela é de 16 metros de altura por 22 de comprimento. Há uma dezena de cinemas com telas como essa nos Estados Unidos. No Brasil, a primeira será inaugurada em setembro, em São Paulo. Segundo Nolan, o impacto visual sobre a nitidez poderá ser sentido nas salas convencionais. “O brilho do olhar dos personagens é mais definido e as imagens ganham em profundidade”. A dificuldade maior para o diretor foi lidar com as câmeras. “Os modelos Imax são pesados”, disse. “Mas conseguimos um bom resultado, fazendo-as se movimentar mais que o habitual, em nome do cinema.”
Chistopher Nolan se valeu da inovação técnica sem romper com os métodos tradicionais. E também remodelou um personagem da cultura pop para dar a ele a dimensão humana e trágica. Assim como a tragédia grega nasceu da idéia segundo a qual as instituições legais deveriam substituir as leis primitivas da vingança, a nova tragédia representada por Batman se dá as avessas: a lei não funciona, e é preciso achar alguém para salvar o mundo do caos. O escolhido duvida de sua missão e se refugia na meditação interior. A vingança se torna, então, a nova lei. Daí a força do Coringa – e da atuação de Heath Ledger. O ator, com a ajuda de Nolan, arrasta a platéia para o abismo das imagens e das dúvidas sobre a condição do heroísmo no mundo atual. Batman – O cavaleiro das trevas é exemplo de um cinema que surpreende sem recorrer à efeitos fáceis.
Fonte: Revista Época (14 de junho de 2008)






não durmo direito esperando esse filme
=~~~~
mas é amanhã
tá chegaaaaaaaaaaaaaaaaaaando
o/