Lendo alguns posts em comunidades da cena e-music, me deparei com um comentário em especial “é porque hoje em dia todo mundo tem preconceito com morning.. infelizmente!”. A pessoa se referia a uma das vertentes do psytrance. Apesar de conseguir distinguir muitos estilos de música eletrônica, confesso que trance e seus derivados não são muito a minha especialidade e o comentário foi o estímulo a escrever sobre o assunto.
Aposto que não sou a única que não saiba qual a diferença do Psytrance Full-On, Full-On Morning, Night, Dark, Progressivo, Groovy ou algum outro nome que se enquadre no estilo. Para esclarecer todas as dúvidas e poder curtir a tal festa que irá trazer o artista que toca um ou outro som e poder distinguir afinal do que se trata, fiz uma entrevista com o DJ Victor Falcão (CE) que irá nos explicar tudo! E claro, não poderia deixar de falar das mudanças de som que andam permeando nossa cena.
VP: Victor, afinal, quais são os nomes mais comuns dos estilos derivados do Psytrance?
Inicialmente, devemos partir do Trance, que se divide em várias sub-vertentes, como por exemplo, o Psytrance, o Dark Trance e o Progressive Trance. Dentro do Psytrance, encontramos o Full On, que se divide nas tão comentadas sub-sub-sub-sub...vertentes (hehe), dentre elas, as principais: o Morning, Night e o Groove.
VP: Qual a diferença de um para outro? Quais as características de cada um?
Além de não existir um método exato para a classificação de todas as músicas, está cada vez mais difícil (e menos necessário, vale ressaltar) rotular. O produtor tem total liberdade de produção, aplicando na música seus gostos e influências musicais, provenientes de qualquer que seja o estilo.
Uma das principais diferenças entre cada estilo, além da sonora, claro, consiste nas suas propostas. Cada um, procura transmitir um tipo de mensagem diferente para quem o escuta/dança.
Existem características básicas que classificam boa parte das músicas:
Morning: Vertente mais “alegre” do Full-On. Tem esse nome por ser mais indicada para o período da manhã das festas. A principal característica são as marcantes melodias da música. Alguns artistas: Electro Sun, Phanatic, Bizzare Contact.
Night: Indicado para a noite, a sub-vertente apresenta bem menos melodias, kicks pesados e sintetizadores “noturnos”. Alguns artistas: Azax Syndrom, Beyondecliptica e Painkiller.
Groove: Kicks cheios e pesados, basslines gordos e retos, produzindo um notável e instigante groove. Outra forte característica da sub-vertente é o impacto que ela causa na pista. Alguns artistas: Burn in Noise, 28 e Hujaboy.
Dark: Como o próprio nome diz: escuro. Propõe uma atmosfera sombria, opondo-se ao Morning. Musicalmente, caracteriza-se por ser bastante rápido, possuir kicks pesados, baixos retos, efeitos rápidos, podendo também, conter samples macabros, como gritos, risadas etc. Alguns artistas: Neo Vox, Silent Enemy e Baphomet Engine.
Progressive: Apesar de ser bem mais lenta que as vertentes citadas acima, é extremamente empolgante e dançante. Caracteriza-se pelo som constante, sutileza dos sintetizadores e o groove no bassline. Alguns artistas: Ace Ventura, Liquid Soul e Flowjob.
Glossário:
Kicks – batidas
Bassline – linhas de baixo
VP: Pela sua experiência na cena cearense, qual o estilo mais agrada o público local?
Sem dúvidas, o Psytrance. Está em alta aqui. Dentro do Psytrance, a sub-vertente que mais agrada o público em geral, ainda é o Full-On Morning. Porém, isso está mudando. Com o passar do tempo, algumas pessoas passam a pesquisar, visando ampliar e formar seu gosto musical e/ou entender um pouco mais sobre o estilo ou sobre a música eletrônica em geral. Naturalmente, essas pessoas ficam mais “exigentes” musicalmente falando, e, o que as agradavam, talvez não agradem mais como antes.
A busca por outras coisas dentro e fora do estilo que se toca/ouve é inevitável, tanto para os DJs, como para o público. No caso das festas cearenses, o Full-On Morning estava presente em boa parte dos sets de vários dos DJs locais, cansando assim, a parte do público que freqüenta as festas em busca de coisas novas.
Tudo é um ciclo. Nasce, cresce, amadurece (bomba) e morre (alguns voltam, outros não). Isso se aplica tanto para as vertentes da música eletrônica, quanto para as sub-vertentes. Como exemplo, podemos citar o declínio do Techno (Acid, Hard...) e a ascensão do Psytrance; o declínio do Psytrance (em outras regiões do país) e a ascensão do Techno Minimalista. Um exemplo dentro do Psytrance que está acontecendo em nossa capital: o declínio do Full-On Morning e a ascensão do Full-On Groove.
VP: Qual estilo você está tocando atualmente? Quais suas influências?
Além de tocar Psytrance, estou tocando algumas vertentes do Techno e do House, como o Minimal Techno, Tech-House e o Progressive House.
Várias são as minhas influências, dentre elas:
No Psytrance: 2Hi, Domestic, Growling Machines, Pixel, Vibra e Wrecked Machines.
No Techno/House: Daniel Portman, D-Nox&Beckers, FPS, Gabe, Gaz James, Hauswerks, Ido Ophir e Oliver Lang
VP: Tenho percebido uma migração por parte dos DJs que tocavam Trance/Psytrance para outros estilos. Isso é fato? Você é um deles? Porque isso vem ocorrendo?
Sim, é fato. Porém, nem todos migram totalmente. Alguns passam a tocar outros estilos (geralmente, estilos de baixos bpms) em paralelo ao Psytrance por vários motivos, sendo o principal deles, por se encontrarem em outras vertentes e para contrastar com o high-bpm (no caso de tocarem também low e-music).
Com o passar do tempo, você aprimora e muda um pouco o seu gosto musical dentro da vertente em que você toca. Com isso, o número de coisas que te agradam passa a ser cada vez menor. Naturalmente, suas pesquisas aumentam, sua visão e seu foco na música eletrônica se expandem, até que você conhece outros estilos com os quais você se identifica. Comigo aconteceu dessa forma.
O tabu de que um DJ só deve tocar um estilo, já foi quebrado há muito tempo. Existem coisas boas em todas as vertentes e sub-vertentes da música eletrônica. Não se deve ficar preso a um só estilo, a só uma vertente.




teste

