O sobrado José Lourenço abriga até meados sete exposições de sete artistas diferentes. O Vida & Arte convidou os artistas Zanazanan e Bosco Lisboa para passear e viajar em meio às obras no local.
Domingo à tarde, no Centro, entre prédios vazios, o silêncio é interrompido por paredões de forró. Uma música, na contramão, toca do alto de um sobrado, meio silenciosa, totalmente despercebida. Entre o prenúncio de chuva, uma elegante mulher convida discretamente. Imponente, ela está enquadrada no terceiro piso do prédio. Sem palavras, aguarda o olhar dos outros. Uma puta. "Ela é uma resistente, conseguiu sobreviver todo o período em que o sobrado esteve ao léu. Após a reforma, ela continua aí", comenta o artista Zanazanan.
A mulher, de nome desconhecido, permanece inerte no reboco da parede. Zanazanan aproveita a imagem da moça e monta a instalação Humano. Todos os olhares se voltam para ela. "Essa mulher é poderosa. Se você reparar, parece até que tem uma espada na mão dela", completa Bosco Lisboa. Sua imagem, feita pelo propagandista cearense Santos Dummont, provavelmente no final do século XIX, traz a lembrança dos prazeres cedidos à elite fortalezense naquele local. Mesmo com a homenagem ao pomposo José Lourenço, rico médico do pretérito, a meretriz é a única marca original a permanecer no espaço.
A partir de sua imponência, Zanazanan viaja. Entre os sentimentos de amor e ódio, ele constrói um espaço de desejos e repulsas, com algumas peças que vão sendo montadas no espaço todas voltadas para esta mulher dos lábios corroídos pelo tempo. Nas laterais, cortinas feitas de batom. No alto da outra parede, a peça aponta. "Esse aponta não necessariamente significa uma ponta, mas pode ser apontar também, com um símbolo de batom ou de falo. E veja para onde ela aponta é para a mulher", explica Zanazanan.
Ela continua inabalável, mesmo com quatro homens a contemplando, ao ritmo de uma música sugestiva. O som, embora totalmente casado com o ambiente da puta, não compõe, a priori, a instalação humano. Ela faz parte da sala ao lado com a exposição vestidos, da artista Tetê de Alencar. Ela, filha do Iguatu, radicada em Londres, saiu pelas lojas de roupas mais chiques da capital inglesa e provou os vestidos ostentosos da elite européia. Emprestou seu corpo como modelo e fotografou a sua imagem no espelho, com uma máquina digital simples, com o flash estourado no rosto, apagando as marcas da sua face e deixando como peça de arte o modelito pomposo. "Muita gente compra um vestido desses pra usar apenas uma vez na vida numa festa e tirar uma fotografia. A Tetê fez isso sem gastar nenhum tostão", brinca Zanazanan.
Tetê se traveste no consumo. Ainda no mesmo andar, o terceiro, a discussão sobre o corpo faz-se constante. Em Carrapicho, de Euzébio Zlocowick, a imagem de Jesus Cristo aparece de óculos escuros, provavelmente por falta de colírio. Com o cabelo rastafari, um sorriso débil, Jesus insinua uma rápida frase "e aí, doido?". Mas não é pra chegar perto dele. O carrapicho não permite tocá-lo. Na sala, vários santos são revestidos por carrapichos e espinhos. Euzébio construiu santos hostis, com new look. Eles compõem meio que um desfile de moda montado por gente do céu. Quando desglorifica o manto sagrado, o artista satiriza o mundo da moda e faz uma discussão sobre a produção industrial. "Essas roupas também humanizam os santos, tornam-se humanos e não sagrados", Bosco.
Mesmo sem ser pensada como uma exposição única, 7 artistas/7 exposições traz relações tênues entre os trabalhos apresentados. O xilogravurista João Pedro fica no alicerce inicial do sobrado com Retratos, Álbuns e Vinhetas. Abre o repertório e prova que com elementos populares faz-se arte contemporânea. "O João Pedro faz uma releitura de fotos e constrói retratos em xilogravuras, mas não é cópia. É uma criação de imagem a partir de outra já existente", diz Bosco. Acima, a maranhense Val Barros mostra, em Claros/Escuros retratos abstratos. Com olhar treinado para o maravilhoso do instante, ela cenas inexistentes senão pela percepção da fotógrafa.
Com o mesmo olhar aguçado, Zé Tarcísio participa com o monumental S.O.S Litoral. O quadro, quase épico, denúncia a especulação imobiliária. Iniciado sua pintura em 1979, em São Paulo, a própria história do quadro é uma saga, só concluída em Fortaleza nos anos 90. "Ele continua muito presente. Essas pessoas olham na cerca para nós e dizem: 'vocês não vão fazer nada para esse problema'?. Esse quadro era para ser uma exposição permanente, não sair de cartaz. A especulação imobiliária é um problema constante", completa Zanazanan.
Finalmente, a maratona de exposições encerra-se com a belíssima Redes. Todas de barro, feitas por João Bosco. Depois de peregrinar quatro andares em escadas o público é surpreendido por redes falsamente verdadeiras. João Bosco deu a várias redes, a forma de barro. Num primeiro olhar, pela cor forte e crua, é possível confundi-las com couro. Mas não. De barro, e falsas, elas se tornam mais bonitas e verdadeiras do que as originais que serviram de modelo para o artista. "Se o homem foi feito de barro, por que as redes também não poderiam ser?", brinca Zanazanan. João Bosco explica. A exposição faz parte de uma observação constante dos objetos do cotidiano. "Agora, eu tô desenvolvendo um longo estudo sobre os movimentos das redes. Perceber os movimentos delas. Além de um objeto bonito, a rede faz parte da nossa cultura. Não tem casa que não tenha uma".
Fim da exposição. Na rua Major Facundo, com a chuva, já não se escuta mais o silêncio. A música permanece elegante. Os objetos das exposições continuam até dia 17 de agosto. A prostituta, até lá, permanece envolta de redes, carrapichos, permeados de imagens claras, escuras, fotografias. Elas irão embora. A "donzela" permanecerá na parede do sobrado.
SERVIÇO
7 ARTISTAS/7 EXPOSIÇÕES - Exposição no Sobrado José Lourenço, (Rua Major Facundo, 154 - Centro), em cartaz até 17 de agosto. De terça a sábado das 10h às 19h. Aos domingos das 14h às 18h. Informações: 3254 5980. Entrada Franca.
A mulher, de nome desconhecido, permanece inerte no reboco da parede. Zanazanan aproveita a imagem da moça e monta a instalação Humano. Todos os olhares se voltam para ela. "Essa mulher é poderosa. Se você reparar, parece até que tem uma espada na mão dela", completa Bosco Lisboa. Sua imagem, feita pelo propagandista cearense Santos Dummont, provavelmente no final do século XIX, traz a lembrança dos prazeres cedidos à elite fortalezense naquele local. Mesmo com a homenagem ao pomposo José Lourenço, rico médico do pretérito, a meretriz é a única marca original a permanecer no espaço.
A partir de sua imponência, Zanazanan viaja. Entre os sentimentos de amor e ódio, ele constrói um espaço de desejos e repulsas, com algumas peças que vão sendo montadas no espaço todas voltadas para esta mulher dos lábios corroídos pelo tempo. Nas laterais, cortinas feitas de batom. No alto da outra parede, a peça aponta. "Esse aponta não necessariamente significa uma ponta, mas pode ser apontar também, com um símbolo de batom ou de falo. E veja para onde ela aponta é para a mulher", explica Zanazanan.
Ela continua inabalável, mesmo com quatro homens a contemplando, ao ritmo de uma música sugestiva. O som, embora totalmente casado com o ambiente da puta, não compõe, a priori, a instalação humano. Ela faz parte da sala ao lado com a exposição vestidos, da artista Tetê de Alencar. Ela, filha do Iguatu, radicada em Londres, saiu pelas lojas de roupas mais chiques da capital inglesa e provou os vestidos ostentosos da elite européia. Emprestou seu corpo como modelo e fotografou a sua imagem no espelho, com uma máquina digital simples, com o flash estourado no rosto, apagando as marcas da sua face e deixando como peça de arte o modelito pomposo. "Muita gente compra um vestido desses pra usar apenas uma vez na vida numa festa e tirar uma fotografia. A Tetê fez isso sem gastar nenhum tostão", brinca Zanazanan.
Tetê se traveste no consumo. Ainda no mesmo andar, o terceiro, a discussão sobre o corpo faz-se constante. Em Carrapicho, de Euzébio Zlocowick, a imagem de Jesus Cristo aparece de óculos escuros, provavelmente por falta de colírio. Com o cabelo rastafari, um sorriso débil, Jesus insinua uma rápida frase "e aí, doido?". Mas não é pra chegar perto dele. O carrapicho não permite tocá-lo. Na sala, vários santos são revestidos por carrapichos e espinhos. Euzébio construiu santos hostis, com new look. Eles compõem meio que um desfile de moda montado por gente do céu. Quando desglorifica o manto sagrado, o artista satiriza o mundo da moda e faz uma discussão sobre a produção industrial. "Essas roupas também humanizam os santos, tornam-se humanos e não sagrados", Bosco.
Mesmo sem ser pensada como uma exposição única, 7 artistas/7 exposições traz relações tênues entre os trabalhos apresentados. O xilogravurista João Pedro fica no alicerce inicial do sobrado com Retratos, Álbuns e Vinhetas. Abre o repertório e prova que com elementos populares faz-se arte contemporânea. "O João Pedro faz uma releitura de fotos e constrói retratos em xilogravuras, mas não é cópia. É uma criação de imagem a partir de outra já existente", diz Bosco. Acima, a maranhense Val Barros mostra, em Claros/Escuros retratos abstratos. Com olhar treinado para o maravilhoso do instante, ela cenas inexistentes senão pela percepção da fotógrafa.
Com o mesmo olhar aguçado, Zé Tarcísio participa com o monumental S.O.S Litoral. O quadro, quase épico, denúncia a especulação imobiliária. Iniciado sua pintura em 1979, em São Paulo, a própria história do quadro é uma saga, só concluída em Fortaleza nos anos 90. "Ele continua muito presente. Essas pessoas olham na cerca para nós e dizem: 'vocês não vão fazer nada para esse problema'?. Esse quadro era para ser uma exposição permanente, não sair de cartaz. A especulação imobiliária é um problema constante", completa Zanazanan.
Finalmente, a maratona de exposições encerra-se com a belíssima Redes. Todas de barro, feitas por João Bosco. Depois de peregrinar quatro andares em escadas o público é surpreendido por redes falsamente verdadeiras. João Bosco deu a várias redes, a forma de barro. Num primeiro olhar, pela cor forte e crua, é possível confundi-las com couro. Mas não. De barro, e falsas, elas se tornam mais bonitas e verdadeiras do que as originais que serviram de modelo para o artista. "Se o homem foi feito de barro, por que as redes também não poderiam ser?", brinca Zanazanan. João Bosco explica. A exposição faz parte de uma observação constante dos objetos do cotidiano. "Agora, eu tô desenvolvendo um longo estudo sobre os movimentos das redes. Perceber os movimentos delas. Além de um objeto bonito, a rede faz parte da nossa cultura. Não tem casa que não tenha uma".
Fim da exposição. Na rua Major Facundo, com a chuva, já não se escuta mais o silêncio. A música permanece elegante. Os objetos das exposições continuam até dia 17 de agosto. A prostituta, até lá, permanece envolta de redes, carrapichos, permeados de imagens claras, escuras, fotografias. Elas irão embora. A "donzela" permanecerá na parede do sobrado.
SERVIÇO
7 ARTISTAS/7 EXPOSIÇÕES - Exposição no Sobrado José Lourenço, (Rua Major Facundo, 154 - Centro), em cartaz até 17 de agosto. De terça a sábado das 10h às 19h. Aos domingos das 14h às 18h. Informações: 3254 5980. Entrada Franca.
Fonte: Jornal O Povo
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